Textos
Enilton Ferreira da Rocha
Embora a Educação a Distância (EAD), no Brasil, tenha surgido em 1904 em sua forma mais primitiva, com as Escolas Internacionais e representação no Brasil oferecendo cursos pagos por correspondência por meio de anúncios em jornais do Rio de Janeiro, temos ainda a sensação de sua adolescência nos dias atuais, dadas a complexidade e as possibilidades de sua proposta. Haja vista o desenvolvimento acelerado das tecnologias de informação e comunicação (TIC), a virtualidade digital e o impacto dessa evolução sobre as possibilidades educacionais decorrentes.
Mesmo acanhada, naquela época a EAD dava sinais dos seus desafios e convidava os mais incrédulos a experimentar uma nova forma de ensinar e aprender sem a presença física do professor. Em 1923, com a criação do Rádio Educativo, por Edgard Roquete Pinto, surgem os primeiros sinais da mediação tecnológica, oferecendo cursos de português, literatura e outros, mas ainda no campo das tecnologias da comunicação.
Credita-se a essa iniciativa um grande passo na proposta da educação fora da sala de aula. Já em 1941, surge a ousadia dos cursos profissionalizantes oferecidos pelo Instituto Universal Brasileiro, também na modalidade de ensino por correspondência. Foi um espanto: como acreditar que alguém seria capaz de se profissionalizar, sem o professor e a sala de aula, na modalidade a distância e recebendo pelos correios o material necessário para estudar? O IUB experimentava, assim, os primeiros passos na quebra dos paradigmas educacionais brasileiros, demonstrando de certa forma uma nova possibilidade e a competência do brasileiro em lidar com essa proposta.
Grandes eram as dificuldades, se considerarmos a precariedade da logística dos correios, do transporte brasileiro da época e o tempo gasto entre o registro da apostila para o destinatário e o seu recebimento. Em 2003, durante o meu trabalho de pesquisa na iniciação científica do Centro Universitário Newton Paiva: "EAD: resistência e criação de uma visão portadora de sentido", tive oportunidade de entrevistar um funcionário aposentado dos correios em Divinópolis e confesso que fiquei surpreso com o que ouvi:
"Em 1962, fiz o curso de Radiotelegrafia pelo Instituto e recebia não só os equipamentos, como também o material de leitura. As apostilas demoravam em torno de 20 a 35 dias para chegar até a gente. Isso de certa forma atrapalhava, porque o curso demorava mais do que o necessário, mas não interferia no resultado da aprendizagem. As dúvidas eram respondidas por meio de cartas e confirmadas por telegramas".
Observa-se que, nesse cenário, o rompimento da barreira da sala de aula era difícil, mas não impossível, e que as dificuldades da época não impediam que essa nova forma de aprender tomasse um novo rumo.
Pois bem, veio então, na década de 70, a chamada era do "otimismo" brasileiro e a EAD soube pegar carona. De 1971 a 1974, o Ministério da Educação (MEC) lança o Supletivo Primeiro Grau - Fase I, programa radiofônico de ensino supletivo. Dessa forma, preparava-se para, no final do século passado, apresentar-se como uma alternativa de reconhecimento público. Surgiram então os novos modelos para o ensino a distância e, dessa vez, com os primeiros sinais da mediação tecnológica na aprendizagem. Dentre eles, destaco o Telecurso Segundo Grau, uma parceria entre a Fundação Roberto Marinho e a Fundação Padre Anchieta, que disponibilizava cursos de preparação de candidatos aos exames oficiais de supletivo, ao estilo do antigo Madureza Colegial, pela programação regular da TV Globo e TV Cultura.
Novas dimensões e a convergência digital
Com o avanço das tecnologias de comunicação e informação, a mediação tecnológica e a convergência entre elas passaram a ser estudadas e observadas como a grande oportunidade de implementação e difusão da proposta da EAD no Brasil. Daí, o surgimento de dissertações de mestrado e pesquisas nessa área com o objetivo de avaliar os diversas formas e modelos de aderência ao cenário educacional brasileiro.
Nas minhas andanças e pesquisas pela EAD, pude observar que existem duas realidades nessa proposta: como permitir que o sujeito da aprendizagem pudesse se integrar e usufruir dessa nova forma de estudar e reaprender; e como as tecnologias educacionais poderiam encurtar esse caminho.
Observa-se que a convergência digital de serviços, redes virtuais e equipamentos ligados à sociedade da informação e aos "internautas" finalmente tornou-se uma realidade do nosso cotidiano.
Segundo especialistas do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT):
"As TIC ganharão em inteligência, miniaturização, segurança, rapidez e facilidade de utilização, de modo a prover o apoio tecnológico ao setor produtivo, dar suporte à concepção e à execução de políticas públicas e aprimorar e disponibilizar seu acervo tecnológico."
Tenho a convicção de que na EAD os conteúdos virtuais e o software de interação e colaboração evoluirão para formatos multimídia tridimensionais.
A convergência digital na mediação da aprendizagem tem demonstrado ser um caminho sem volta. Entre janeiro de 2004 e janeiro de 2005, coordenei o planejamento, execução e gestão de resultados do curso de pós-graduação em Gestão Fiscal, na modalidade a distância, para 52 funcionários de várias prefeituras dos Estados de Minas, Rio e São Paulo, cujas tecnologias se integravam e se ajustavam ao modelo blended de aprendizagem.
Utilizamos no modelo misto os recursos tecnológicos da internet, DVD, Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e material impresso, integrados às atividades dos encontros presenciais. Temos outras experiências brasileiras de sucesso, com o mix da internet, DVD, teleconferência, videoconferência e material impresso. Vejo também com muito otimismo a chegada da TV digital e Web TV, pois, além de incrementar a dialógica na relação professor (tutor) e aluno (participante) virtuais, introduzirão o modelo de colaboração síncrona na aprendizagem virtual pela TV.
Do ponto de vista social, essa união tecnológica em prol da modernidade na educação assusta. No Brasil, notadamente, ainda perdura a desconfiança, aliada ao fantasma da exclusão digital. Não acredito que essa situação nos deixe fora desse novo cenário, mas o que me preocupa é o grande contingente de pobreza e as classes menos favorecidas que poderiam não participar da rede digital. Porém, não são objetos de discussão aqui algumas considerações sobre o papel do Estado na inversão desses valores.
Observa-se que o Estado e o cidadão têm se encontrado no guichê virtual durante as relações de cunho social, legal, do trabalho, cultural e educacional, oficializando uma nova era entre a transparência do poder público e a cidadania. “É PRECISO INVESTIR NO sujeito dessa nova sociedade, de modo a permitir que a convergência digital, do ponto de vista educacional, atinja o seu principal objetivo: estabelecer e socializar a EAD”
Reforça-se, dessa forma, a conveniência e a continuidade do e-gov na proposta de modernidade da administração pública.
É preciso investir no sujeito dessa nova sociedade, de modo a permitir que a convergência digital, do ponto de vista educacional, atinja o seu principal objetivo: estabelecer e socializar a EAD não só como uma nova modalidade de estudar e reaprender, mas, principalmente, como um veículo para levar o conhecimento aos quatro cantos do mundo, sem restrições, rompendo as barreiras da distância, das diferenças políticas, sociais e culturais. Só assim poderei entender a dimensão e a relevância dos benefícios do avanço tecnológico e sua diversidade na mediação da aprendizagem em suas várias instâncias. Não consigo perceber a possibilidade de massificação da virtualidade na educação sem o conforto tecnológico dos seus atores.
Entendo que a convergência digital, representada pela união das multimídias e multimeios, tem contribuído significativamente para o sucesso da EAD no Brasil e no mundo; mas, embora esteja atrás dessa resposta há mais de oito anos, ainda tenho dúvidas sobre a sua eficácia. Isso em decorrência das desigualdades entre o estrutural e o sujeito na maioria dos modelos educacionais para EAD existentes no Brasil.
Foi para mim motivo de muita alegria participar dessa oportunidade, deixando aqui um extrato do meu pensamento, da minha vivência e da experiência sobre a relação entre a EAD e a convergência digital.
* Enilton Ferreira Rocha
Administrador de Empresas, com especialização lato sensu em Docência para o Ensino Superior, Administração Financeira e Análise de Sistemas de Informação. Pesquisador em Educação a Distância.
No Centro Universitário Newton Paiva, é professor e consultor em Educação a Distância.
Na Prodemge, é responsável pela Superintendência da Universidade Corporativa.

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