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Romero Tori
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RESUMO
Com a tendência de se convergir Educação a Distância e Educação Convencional tais denominações começam a ficar ultrapassadas. O conceito de Educação Virtual Interativa (EVI), que mescla os pontos positivos das duas modalidades, reflete melhor o que se espera da Educação do Futuro. E para se mensurar e comparar o grau efetivo de distância educacional embutida em determinada atividade de aprendizagem em cursos de EVI é proposta uma métrica, que se baseia na análise de três tipos de distância (espacial, temporal e interativa) e três tipos de relações (aluno-Professor, aluno-Aluno e aluno-Material). Palavras-chave: Educação a Distância, Educação Virtual Interativa, Tecnologia na Educação
1. Introdução
Todo educador que trabalha com Educação a Distância sabe da importância de se ter momentos presenciais durante um curso virtual, sendo que, muitos cursos a distância já prevêem em seu programa algumas reuniões com presença física dos participantes. Por outro lado, os educadores envolvidos com cursos baseados em salas de aula reais vêm descobrindo as vantagens de se utilizar recursos virtuais para apoiar e complementar as atividades de aprendizagem presenciais. A evolução natural dessas tendências deve se dar no sentido de se obter uma combinação adequada de atividades remotas e locais, tirando-se proveito dos pontos fortes de cada uma delas e articulando-as em uma proporção compatível com as características do público-alvo e dos objetivos de cada curso. Será, portanto, cada vez mais difícil se encontrar bons cursos que sejam totalmente a distância ou totalmente baseados na presença física.
A distância na educação, além de relativa, pode ser vista sob diferentes enfoques. Um aluno interagindo online com um professor remoto pode se sentir mais próximo de seu mestre do que se estivesse assistindo a uma aula local expositiva, junto com uma centena de outros colegas, todos impossibilitados de interagir adequadamente com o professor ou entre si. Assim, não é medindo-se a distância espacial entre alunos e professores que se terá um parâmetro adequado de comparação. O que realmente importa é a sensação de distância percebida pelo aprendiz.
Este artigo apresenta uma proposta de métrica que possibilita uma avaliação numérica das distâncias em atividades de aprendizagem, e que utiliza como parâmetro a sensação de distância em lugar das distâncias espaciais envolvidas. Essa métrica oferece um critério de comparação do efetivo grau de distanciamento encontrado em processos de aprendizagem, independentemente da proporção entre real e virtual de cada um deles.
2. Uma teoria para o conceito de Distância em Educação
A expressão "Educação a Distância" vem sendo largamente utilizada para designar formas tão diferentes de aprendizagem quanto cursos por correspondência e laboratórios virtuais de imersão total. Em [KEEGAN, 1996] e [SIMONSON, 2000], para citar dois exemplos, são apresentadas diversas definições para Educação a Distância, das mais antigas às mais atuais. A maioria dos autores, no entanto, evita tentar definir o que vem a ser DISTNCIA na educação. O que importa em um processo de ensino-aprendizagem não é a distância física real entre aluno e professor (se separados por quilômetros ou metros), mas sim a efetiva sensação de distância entre os participantes. Ao se falar em Educação a Distância muitas vezes se esquece que o que se deve almejar é a eliminação das distâncias, uma vez que essas por si só não trazem vantagem alguma do ponto de vista pedagógico. A fim de auxiliar na compreensão do papel da distância na educação, é proposta em [TORI, 1999], uma classificação do conceito de "distância", sob a perspectiva dos envolvidos em atividades de ensino/aprendizagem. Tal classificação, revista e aprimorada, é exposta a seguir.
2.1. Tipos de distância
Distância Espacial
A distância espacial (ou física) diz respeito à relação na ocupação do espaço físico real entre aluno e professor, aluno e seus colegas, e aluno e materiais de estudo. Quando, durante o processo de ensino/aprendizagem, há um compartilhamento do mesmo espaço físico, a atividade é dita local ou contígua. Quando há uma separação espacial, seja entre o aprendiz e o responsável pela condução do processo (professor, tutor, orientador, mentor etc.), que pode até mesmo não existir, seja entre aprendiz e demais aprendizes, ou seja entre aprendiz e seus objetos de estudo, o processo é dito remoto ou a distância. Exemplos de aprendizagem remota são os cursos por correspondência, as vídeo e teleconferências, os telecursos, os treinamentos baseados em Web e sistemas de auto-aprendizagem. A distância pode ser analisada separadamente com relação a aluno-professor, aluno-aluno e aluno-material. é possível, digamos, que se tenha uma atividade local, no que se refere às distâncias aluno-aluno e aluno-material, e ao mesmo tempo remota, no sentido da distância aluno-professor. Um exemplo prático que se enquadraria nessa suposição seria uma aula de laboratório sem a presença física do professor, o qual passaria suas orientações via apostila, vídeo ou teleconferência.
Evita-se aqui utilizar o temo "presencial", em contraposição a "a distância", na classificação das distâncias espaciais na educação. O motivo é que é possível a presença simultânea de alunos e professores, ainda que separados fisicamente. Um exemplo seriam os cursos por teleconferência ou videoconferência, que podem ser entendidos como presenciais a distância. Além disso, o termo presencial não é adequado para a caracterização da distância aluno-material
Distância Temporal
A distância temporal se refere à simultaneidade ou não das atividades que relacionam aluno-professor, aluno-aluno e aluno-material, dentro de um processo de ensino-aprendizagem. Quando ambas as partes atuam simultaneamente, de forma local ou remota, o processo é dito síncrono. Quando há uma defasagem significativa entre a ação de um e a resposta de outro (acima dos padrões humanamente aceitáveis para o estabelecimento de um diálogo ao vivo) temos um processo assíncrono. Em geral o processo local é também síncrono, enquanto que o remoto pode ser tanto síncrono (exemplo: video-conferência , chat via internet) quanto assíncrono (exemplo: fórum de discussão via internet, ensino por correspondência).
Distância Interativa
A distância interativa, ou operacional, se relaciona diretamente à participação do aluno no pocesso, e informa se este é operacionalmente ativo ou passivo. Quanto maior a interatividade do aluno menor é a distância operacional. Assim como nas classificações das demais distâncias, há 3 tipos de distâncias interativas: professor-aluno ( aula expositiva X aula interativa); aluno-material (material passivo X material interativo); aluno-aluno (trabalho individual X trabalho cooperativo).
3. Métrica para caracterização da distância em uma atividade de aprendizagem
Vamos considerar apenas duas possibilidades para cada tipo de distância, ou seja, a existência ou não da mesma, e ignorar a sua quantificação (quão distante, quão interativo etc.). Dessa forma teremos, em tese, para cada uma das relações (aluno-professor, aluno-aluno e aluno-material) 8 possíveis combinações das distâncias espacial, temporal e interativa, para as quais são atribuídos valores que vão de 0 (sem nenhuma distância) a 7 (com todos os tipos de disância) (Tabela 1).
Observando-se a Tabela 1 verifica-se que o critério adotado para se chegar ao valor da métrica associada a cada combinação é de se considerar o valor do número binário de 3 bits formado pelos indicativos de existência (bit = 1) ou não existência (bit = 0) das distâncias Interativa, Temporal e Espacial, tomados nesta ordem (veja Apêndice para maiores informações sobre o Sistema Binário de Numeração).
A ordem adotada para atribuição dos pesos leva em consideração que o peso da Interatividade (peso 4) deve ser maior que o da Temporalidade (peso 2) que, por sua vez, deve ser maior que o da Espacialidade (peso 1). Alguém poderia argumentar que o compartilhamento de um mesmo espaço físico é bastante forte para a sensação de presença e que a distância espacial deveria então ter o maior peso. Na verdade, quando temos uma atividade realizada localmente é natural que ela seja simultaneamente síncrona e interativa. Assim , mesmo sem a utilização de recursos especiais poderemos ter as três distâncias sendo reduzidas em uma atividade local, ou seja, a existência ou não de distância espacial pode influenciar as demais distâncias, havendo assim uma participação indireta nos outros pesos da métrica.
Uma atividade de aprendizagem (uma aula, uma palestra, uma experiência, um seminário etc.) pode ser caracterizada, em função das distâncias envolvidas, quanto a cada uma das 3 formas de relacionamento possíveis (aluno-professor, aluno-aluno e aluno-material). Para cada uma dessas formas podemos associar uma métrica de distância conforme apresentado na Tabela 1.
Resta agora o estabelecimento de um critério para a combinação dos valores individuais de cada relação, compondo-se um valor de distância global para a atividade. Como a distância associada a cada relação possui um valor que varia de 0 a 7, podemos definir um número octal (veja Apêndice) que represente a distância global associada a uma determinada atividade. Resta definir qual relação terá peso maior (e ficará mais a esquerda na composição do número octal). Para essa composição foi arbitrada a seqüência P-A-M (aluno-Professor, aluno-Aluno, aluno-Material), considerando-se ser essa a ordem decrescente de influência na determinação da sensação global de distância.
A fórmula geral a ser utilizada é então: DAA = 64 * P(i, t, e) + 8 *A(i, t, e) + M(i, t, e) onde:
DAA Distância na Atividade de Aprendizagem
P, A e M representam respectivamente as distâncias nas relações aluno- Professor, aluno-Aluno e aluno-Material
i, t e e indicam as distâncias interativa, temporal e física, e podem assumir os valores 0 (sem distância) ou 1 (a distância ou inexistente).
O valor de cada função (P, A ou M) é obtido pelo seguinte cálculo:
r ( i, t, e) = 4i + 2t + e onde r pode ser P, A ou M
Vejamos um exemplo. Uma atividade interativa na Internet, baseada em chat, com a presença de todos os alunos e do professor, discutindo um texto que todos leram previamente, teria a seguinte métrica de distância:
- Distância aluno-Professor (P): P (i, t, e) = P (0, 0, 1) = 1 ‚ só distância espacial - Distância aluno-Aluno (A): A (i, t, e)= A (0, 0, 1) = 1 ‚ só distância espacial
- Distância aluno-Material (M): M (i, t, e)= M (1, 1, 1) = 7 ‚ todas as distâncias
DAA = 64* P(0,0,1) + 8*A(0, 0, 1) + M(1, 1, 1) = 79
A distância obtida (79) deve ser comparada com a distância máxima possível (511), para que se possa avaliar o grau de distância existente distante nessa atividade.
Note-se que, excetuando-se o caso ideal (distância 0), qualquer outra atividade educacional terá, por esse critério, um certo grau de distância. Logo perde o sentido a classificação de um curso como sendo a distância ou não, já que praticamente toda atividade educacional, em maior ou menor grau, é a distância. é até possível que um determinado curso virtual venha a receber um valor DAA menor que outro em formato convencional, na tradicional sala de aula.
Resumindo, o método proposto para se chegar à métrica de distância global foi:
- considerar que a tripla ( i, t, e ) representa um número binário de 3 bits, de tal forma que o bit i será o mais significativo, tendo portanto peso 4, o bit t terá peso 2 e o bit e será o menos significativo, com peso 1;
- o critério para se definir a ordem dos bits (i mais significativo, e menos significativo) foi de que a interatividade influi mais na aprendizagem que o sincronismo que por sua vez é mais significativo que a simples contigüidade física; observação: a contigüidade física normalmente significa atividade síncrona e tanto a contigüidade física quanto o sincronismo facilitam a interatividade; mas quando isso de fato ocorrer será contabilizado no bit t e/ou i;
- o valor de cada uma das funções (P,A e M) é o valor do respectivo número binário tif;
- o cálculo do DAA considera P, A e M como dígitos octais, nessa ordem;
- O critério para se definir a ordem dos bits octais (P mais sigificativo, M menos significativo) foi considerar que o professor, os colegas e, por último, o material são nessa ordem os mais importantes na sensação de distanciamento por parte do aluno durante uma atividade educacional.
- Deve ser notado que a métrica aqui proposta deve ser aplicada individualmente a cada atividade de aprendizagem; é possível, por exemplo, termos dentro de um mesmo curso uma atividade de distância global zero e outra com distância 511; a distância associada a um determinado curso poderia ser definida como a média ponderada das distâncias das atividades de aprendizagem nele desenvolvidas;
3.1. DAA Normalizada
Em lugar de uma faixa de variação entre 0 e 511 pode ser mais interessante uma escala de 0 a 100 para a métrica DAA. Assim podemos definir a DAA Normalizada como sendo:
DAAN = DAA / 5,11
Repetindo o exemplo anteriormente apresentado: para uma atividade interativa na internet, baseada em chat, com a presença de todos os alunos e do professor, discutindo um texto que todos leram previamente, teríamos:
DAA = 64* P(0,0,1) + 8*A(0, 0, 1) + M(1, 1, 1) = 79 á DAAN = 79 / 5,11 = 15,5
Assim temos para o exemplo em questão uma distância DAAN de 15,5 em uma escala de 100.
3.2. Alguns exemplos
Uma das vantagens de se utilizar o conceito de Educação Virtual Interativa (EVI) em lugar de Educação a Distância (EAD) é não ser necessário rotular um determinado curso como sendo a distância, presencial, não presencial, semi-presencial, local, convencional, tradicional ou outra denominação que vincula métodos e técnicas educacionais ao nome do curso. Um bom curso deve lançar mão de toda e qualquer metodologia ou tecnologia que for necessária para que os objetivos de aprendizagem sejam atingidos com qualidade, sempre procurando minimizar a distância global percebida pelos aprendizes.
Dificilmente os extremos são as melhores soluções. Um curso totalmente a distância tem muitos problemas, como a falta de relacionamento interpessoal, isolamento, desmotivação, altos índices de abandono. Mas um curso totalmente local também possui seus pontos fracos, como tempo perdido em locomoções dos envolvidos, dificuldade de se ter atendimento personalizado, transformação do ensino em linha de produção, não atendimento às diferenças cognitivas e de estilo de aprendizagem dos alunos, ou, quando todos os problemas anteriores são resolvidos, altos custos.
Alguns autores defendem a importância do ensino tradicional em sala de aula por propiciar convívio social, interação entre os colegas, e deste com os professores, entre outro aspectos relacionados à inteligência emocional. Mas nem sempre essas interações ocorrem nas salas de aula. Muitas vezes os alunos não podem nem mesmo conversar entre si durante toda a aula e mal interagem com o professor. Em algumas instituições de ensino tradicionais, é comum que nos trabalhos em grupo os colegas dividam de forma apressada os tópicos da pesquisa e só voltem a conversar sobre o assunto no dia da entrega, quando juntam os pedaços que foram desenvolvidos individualmente sem que um tome conhecimento do trabalho do outro.
Como melhorar tanto os cursos a distância quanto os convencionais ? Pegando o que há de bom em cada um e convergindo para o que deve ser a educação no futuro: um misto de atividades locais com atividades virtuais. Em lugar de se ter um professor escrevendo matéria na lousa, ou apresentando transparências, podemos disponibilizar ao aluno todo o conteúdo do curso online. Em lugar de se ter alunos passivos que mal podem conversar durante a aula, devemos desenvolver trabalhos e discussões em grupo, seminários e outras atividades de integração. Em lugar de ficar repetindo a mesma aula várias vezes o professor deve se dedicar a elaborar materiais virtuais e interativos, a participar com seus alunos de fóruns de discussão e a prestar esclarecimentos de dúvidas e orientações.
Com a convergência entre educação virtual e convencional, teremos composições diferentes entre atividades virtuais e locais, com alguns cursos sendo predominantemente a distância (espacial) e outros com mais ênfase nas atividades locais. Mas poucos deverão ser os cursos que se situarão nos extremos. Também não haverá muita diferenciação entre laboratório, sala de aula e residência do aluno, que poderá desenvolver muitas atividades acessando a rede a partir de um equipamento portátil.
O segredo de um bom curso será utilizar os momentos em que os alunos se encontram fisicamente presentes para desenvolver atividades que privilegiem a interação aluno-aluno e aluno-professor, e os momentos virtuais para atividades que exigem concentração. Se os momentos presenciais forem bem aproveitados, os alunos se conhecerão melhor e interagirão mais e melhor no espaço virtual, o mesmo ocorrendo na relação aluno-professor. Assim se reduz bastante a necessidade dos momentos de presença física e se aproveita muito mais os momentos de presença virtual. 5. Conclusão
Este artigo apresentou uma proposta de métrica que possibilita avaliar o grau de distância efetiva de uma atividade de aprendizagem. Essa distância é calculada levando-se em consideração as relações aluno-Professor, aluno-Aluno e aluno-Material. Com esse instrumento de quantificação torna-se viável avaliar e comparar, em termos de distância na educação, cursos de Educação Virtual Interativa (EVI). Os cursos de EVI são caracterizados por mesclarem atividades locais e remotas, aproveitando o que há de melhor em cada uma delas em função das necessidades e objetivos de cada atividade pedagógica.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
TAIT, A.; MILLS, R. The Convergence of Distance and Conventional Education. Routledge. 1st ed. New York. 1999
TORI, R.; FERREIRA, M. A. G. V. Educação sem Distância em Cursos de Informática. VII Workshop sobre Educação em Informática ‚ WEI 99. Rio de Janeiro, RJ, 25 a 27 de agosto de 1999. Anais, pp. 581-590. (PROD-042)
KEEGAN, D. Foundations of Distance Education. Routledge. 3.ed. New York. 1996.
SIMONSON, M. et. Al. Teaching and Learning at a Distance. Merril (Prentice Hall). New Jersey. 2000.
Apêndice ‚ Os Sistema Binário e Octal de Numeração
O sistema binário de numeração utiliza apenas dois dígitos (0 e 1) para representar qualquer número, em lugar dos 10 dígitos (0 a 9) empregados pela base 10 convencional. Este sistema é utilizado pelos sistemas computacionais por simplificar bastante o processo de cálculo e os circuitos necessários para sua realização. Na área de computação cada dígito binário é denominado bit (contração das palavras inglesas binary digit).
O princípio de representação de um número em binário é o mesmo da base 10, com a diferença que nesta base o valor relativo de cada dígito é multiplicado por 10 a cada deslocamento para a esquerda, enquanto que na base 2 o dígito deve ser multiplicado por 2 a cada deslocamento a esquerda. Vale a mesma regra para a base 8 (Octal), que utiliza dígitos de 0 a 7, alterando-se o fator de multiplicação para 8. Exemplos:
A tabela abaixo apresenta os números de 0 a 15 em suas respectivas representações em binário e octal.
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