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Curso Presencial ou Curso a Distância? Aspectos Econômicos do Processo Decisório
Vânia Lomônaco Bastos



Curso Presencial ou Curso a Distância? Aspectos Econômicos do Processo Decisório

Vânia Lomônaco Bastos
CEAD/UnB
Email: vlb37@unb.br



(Texto para download: Formato Word (.DOC))

RESUMO

Este artigo pretende apresentar um modelo logicamente consistente para examinar os custos econômicos de um curso disponibilizado em rede de computadores, permitindo comparações com o custo do curso presencial.

Palavras-chave: ensino a distância; cursos em rede de computadores; custos do ensino a distância.

1. INTRODUÇÃO

Os cursos a distância e principalmente os cursos em rede estão conquistando cada vez mais adeptos no Brasil. Muito se tem escrito sobre as vantagens e desvantagens de cada modalidade e os argumentos em defesa do ensino a distância e/ou em rede apontam, em geral, para aspectos pedagógicos, para a flexibilidade de horários tanto para alunos como para professores, as possibilidades de estender as oportunidades de educação, a individualização da relação professor/aluno, entre outros.

Há, contudo, uma questão que tem sido pouco explorada: a comparação entre o custo econômico das duas modalidades. Na verdade, existe certo consenso de que o custo de um curso a distância e/ou em rede de computadores tende a se tornar menor do que o custo do ensino presencial, desde que o número de alunos seja suficientemente elevado. Não há, porém, segurança com relação ao número de alunos a serem atingidos para que o custo do ensino em rede se torne economicamente mais vantajoso.

O objetivo desse trabalho é propor um modelo para formalizar a análise dos custos de um curso presencial e de um curso em rede, permitindo comparações entre eles. A análise concentra-se em cursos em rede, por julgar que são esses os cursos que mais tendem a crescer e atrair novos usuários. Contudo, a análise pode ser aplicada também à oferta de cursos que não dependem da disponibilidade de acesso à rede. O modelo aqui apresentado procura examinar as condições da oferta de um curso que tenha como objetivo atender, no mesmo período de tempo, alunos residentes na mesma localidade ou em localidades diferentes. Isso significa que cada professor só pode ser responsabilizado por uma turma de alunos.

Além disso, a análise considera somente os custos diretamente ligados à produção e à oferta de um curso, em qualquer uma das modalidades, deixando de considerar outros custos envolvidos, como aqueles decorrentes do investimento e manutenção de instalações e equipamentos, do deslocamento de professores, etc. Alguns pressupostos adotados inicialmente são bastante restritivos mas podem ser modificados, para adequar o modelo para diferentes situações concretas.

Antes de prosseguir, é importante destacar que não se pretende afirmar que a questão do custo deve ser o elemento crucial para a decisão entre oferecer um curso a distância ou oferecer o mesmo curso sob a forma presencial. Algumas vezes, por motivos vários, o aspecto econômico torna-se de menor importância. Mas certamente que as considerações sobre os custos são valiosas para fundamentar uma escolha.

Para atingir o objetivo proposto, o primeiro passo será examinar o custo de um curso presencial, o que é feito a seguir.

1. Custo de um curso presencial

Na determinação do custo por aluno de um curso presencial, serão adotados os seguintes pressupostos:

i) Cada turma é composta de 40 alunos. Esse número foi escolhido por se julgar que é pedagogicamente aceitável para a realidade brasileira, embora especialistas em educação possam considerá-lo elevado para um bom curso presencial. Na verdade, sabe-se que as turmas costumam ser mais numerosas na maioria das instituições brasileiras de ensino superior.

ii) Cada professor, um especialista da área, prepara o material que será utilizado no curso sob sua responsabilidade e o tempo de preparação é o mesmo para todos os professores. Supõe-se, assim, que o custo de preparação do curso mantém-se constante, independentemente do número de turmas.

iii) Para cada hora de aula, supõe-se que o professor despende uma hora na preparação do material a ser usado: transparências, resumos, exercícios, provas, etc. Nesse caso, cada hora de aula envolve 2 horas de trabalho do professor: uma,para preparação; e outra, para a aula propriamente dita.

De acordo com esses pressupostos, o custo por aluno em um curso presencial será:

CAp = 2tw/40 , onde: CAp = custo por aluno em um curso presencial

t = total de horas/aula

w = salário/hora do professor, nível adjunto.

Então:

CAp = tw/20 = 0,05 tw (1)

De acordo com os pressupostos iniciais, a análise que se segue considera que o custo por aluno não se altera mas mantém-se constante para qualquer número de turmas de 40 alunos. Todas as turmas têm professor de igual nível, que recebem o mesmo salário/hora e que preparam o seu próprio material para as aulas. Naturalmente, reconhece-se que essas condições podem sofrer alterações, principalmente quando o número de turmas se torna excessivamente grande ou quando não há disponibilidade de professores do mesmo nível na localidade onde residem os alunos.

2. Custo de um curso para 40 alunos, oferecido em rede de computadores:

Pressupostos:

i) O professor atende aos 40 alunos.

ii) Na preparação do curso, tomou-se como unidade de medida do custo o salário/hora do professor, estimando-se que, para cada hora de aula, são necessárias 10 horas de salário do professor para preparar o material a ser disponibilizado em rede. Isso significa que todos os profissionais que participam da preparação do material (conteudistas, especialistas em ensino a distância, especialistas em Web Design, digitadores em html, etc) dividem entre si o valor equivalente a 10 vezes o salário/hora de um professor adjunto. Há um certo grau de arbitrariedade na definição desse tempo de preparação, pois não há estudos que permitam precisão. A experiência, contudo, parece indicar que essa relação, 10 horas de preparação para cada hora de aula, é razoável: um curso de 40 horas, por exemplo, teria um custo de preparação equivalente a 400 salários/hora, ou seja, 50 dias. De qualquer forma, esse número pode ser alterado sem prejuízo do modelo mas, obviamente, os resultados seriam diferentes.

Sendo CAr = custo por aluno de um curso oferecido em rede, tem-se:

CAr = 11 tw/40 = 0,275tw (2)

Observa-se, como era de se esperar, que o custo por aluno de um curso em rede para 40 alunos é bem superior ao custo em um curso presencial. À medida que aumenta o número de alunos, contudo, esse custo irá decrescendo, já que o mesmo material é utilizado.

Custo de um curso em rede oferecido para 120 alunos

Pressupostos:

i) Supõe-se que, com um curso em rede, 120 alunos podem ser atendidos por 2 tutores, cada um tendo 40 alunos sob sua responsabilidade, e um professor que também exerce a tutoria para 40 alunos e orienta o trabalho dos tutores. Esses números têm como base experiências concretas, embora alguns especialistas considerem que 30 alunos seria o número máximo para não prejudicar o atendimento individualizado ao aluno. Deve-se ressaltar que o tamanho das turmas a serem atendidas pelo professor e por cada tutor pode ser bem maior em cursos a distância que não utilizam predominantemente as ferramentas típicas do ensino em rede: as facilidades de comunicação fazem com que o aluno de um curso em rede tenha maior participação no curso e solicite mais atenção do professor/tutor, o que, aliás, é uma das vantagens dessa modalidade de ensino. Aqui também cabe a observação feita anteriormente: o número de alunos sendo atendidos pelo professor e pelos tutores pode ser modificado.

ii) Supõe-se, ainda, que o salário/hora do tutor corresponde à metade do salário/hora do professor.

O custo por aluno será, então:

CAr = 11tw + 0,5tw + 0,5tw /120

CAr = 12tw= 0,10tw/40 (3)

Apesar da redução substancial no custo unitário quando se trata de atender 120 alunos, esse ainda é o dobro do custo por aluno em um curso presencial. Com o crescimento do número de alunos, o custo do curso em rede se reduzirá, mas é preciso considerar que será necessário aumentar o número de professores para orientar os tutores. Nesse caso, os conjuntos seguintes de 120 alunos terão uma composição de custo diferente.

4. Custo de um curso em rede oferecido para 240 alunos

Ao examinar o custo do curso oferecido para 240 alunos, esses serão divididos em 2 conjuntos. Para o primeiro conjunto de 120 alunos, o custo já é conhecido (equação 3):

CAr = 12tw/120

Para o 2† conjunto de 120 alunos, o custo de preparação do material desaparece, uma vez que se supõe que o mesmo material será utilizado. Supõe-se, porém que o professor terá o mesmo nível e o mesmo salário. Tem-se, então:

CAr = tw + 0,5tw + 0,5tw /20= 2tw/120

Assim, considerando-se 240 alunos, a equação de custo por aluno será:

CAr = (12tw) + (2tw)/240

CAr = 14aw = 0,058/240 (4)

Verifica-se, portanto que, com 240 alunos, o custo por aluno de um curso em rede aproxima-se bastante do custo por aluno em cursos presenciais. Qual será, então, o número de alunos que torna o curso em rede economicamente mais eficiente?

5. Ponto de equilíbrio entre o custo de um curso presencial e um curso em rede

Considera-se como ponto de equilíbrio o ponto em que os custos do curso em rede iguala-se ao custo do curso presencial. Para encontrar esse ponto de equilíbrio, está sendo adotada como unidade de análise "conjuntos" de 120 alunos.

Sendo x = n† de "conjuntos" de 120 alunos, tem-se:

CAr = (12tw) + (x-1) (2tw)/120x,

Essa equação significa que o custo por aluno de x conjuntos de 120 alunos é igual à soma dos custos do primeiro conjunto mais a soma dos custos de x-1 conjuntos, tendo como denominador o número total de alunos (120x).

No ponto de equilíbrio, CAr = CAp , ou seja:

12tw + (x-1) (2tw) = 0,05tw/120x(5)

Resolvendo-se essa equação para x, obtém-se

x = 2,5

Esse resultado significa que, dentro dos pressupostos feitos, os custos por alunos tornam-se iguais com 2,5 conjuntos de 120 alunos, ou seja, com 300 alunos. A partir desse número, o custo do curso em rede torna-se menor do que o custo do curso presencial.

Há, porém, um aspecto a ser ressaltado: o modelo baseia-se em conjuntos de 120 alunos sendo atendidos por um professor e 2 tutores. A distribuição de 300 alunos entre professores e tutores não se encaixa nesse modelo. Por essa razão, deve-se interpretar o resultado obtido como um indicador do ponto de equilíbrio, a partir do qual o curso em rede torna-se economicamente mais vantajoso. Assim, de acordo com os pressupostos feitos, pode-se afirmar que, com 3 conjuntos de 120 alunos, ou seja, 360 alunos, o custo por aluno de um curso em rede será menor do que o custo por aluno em um curso presencial.

Para ilustrar a determinação do ponto de equilíbrio, foi construído o gráfico apresentado a seguir, supondo t=40 e w=100.


Ponto de equilíbrio entre o custo de um curso presencial e um curso em rede

6. Considerações finais:

Utilizando-se o modelo proposto, é possível fazer modificações para adaptá-lo a diferentes situações. Pode-se supor, por exemplo, que o tempo necessário para preparar o material de um curso a ser disponibilizado em rede equivale a vinte horas para cada hora de aula. Nesse caso, a equação (2) deve ser substituída:

CAr = 22 tw = 0,55tw/40

A equação (7), por sua vez, será substituída por:

22tw + (x-1) (2tw) = 0,05tw/120x

Obtém-se, então:

x = 5, ou seja, serão necessários 600 alunos (5x120) para que os custos se igualem.

De forma semelhante, pode-se modificar o modelo, considerando-se apenas 30 alunos por tutor. Isso, naturalmente, elevará o custo por aluno do curso em rede e o ponto de equilíbrio será atingido com um número maior de turmas.

Um aspecto importante a ser destacado é que o modelo coloca em evidência uma característica importante dos cursos disponibilizados em rede: a manutenção do mesmo padrão de qualidade ainda que o número de alunos seja elevado, pois o material utilizado é o mesmo. Nos cursos presenciais, quando aumentam o número de turmas torna-se difícil garantir esse padrão de qualidade, já que a preparação do material é responsabilidade de diferentes professores e nem sempre é possível contar com professores de maior qualificação para todas as turmas.

Para concluir, não é demais repetir que não se pretende afirmar que o fator custo deva ser decisivo para a tomada de decisão sobre a modalidade de curso a ser adotada. Como foi dito no início, esse é apenas um aspecto da questão.

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