Textos
Nanci Rodrigues Barbosa
Mediação e Negociação de Sentido em Práticas de Educação a Distância Voltadas à Formação Profissional
Nanci Rodrigues Barbosa
Escola de Comunicações e Artes USP
Pós graduação Depto de Cinema Rádio e Televisão
Linha de pesquisa: Imagem e som na educação e na ciência.
Email: nancibarbosa@uol.com.br
(Texto para download: Formato Word (.DOC))
ABSTRACT
This research study discusses the processes of mediation as well as the negotiation of meaning in reception practices of distance education projects aimed at occupational development. The study considered that distance education practices might be innovative if they manage to surpass the solely informational approach and the separation regarding the students" cultural world. It investigated how the relationships between courses" contents and practices interact in the students" daily lives. Considering that modernity involves the ideas of rationality and subjectivity the research was oriented by the cultural studies" approach embracing the fields of communication, education and labor. The empirical research was conducted with students of the Telecourse 2000 - Professional in Mechanics engaged both in the open reception and the teleclassroms systems.
KEYWORDS: Distance education; communication; labor; mediation.
I Introdução
No contexto atual de globalização, com tensões sociais e alterações culturais , a educação tem sido compreendida como um valor altamente desejado pelos diversos setores da sociedade e, freqüentemente, apontada como estratégica na possibilidade de ser geradora de uma transformação que permita à sociedade superar todos os seus impasses. A educação, hoje, sofre grande pressão no sentido de sua transformação e enfrenta o desafio de ser repensada e de promover mudanças no seu papel, finalidade e inserção social. Vive também um momento rico em termos de discussão de novas concepções curriculares, busca de metodologias, materiais e recursos que permitam a vivência de novas práticas educacionais.
A educação profissional constitui uma modalidade da educação e como tal requer atenção e passa por questionamentos, o que tem levado instituições dedicadas à formação profissional a elaborar novos modelos educacionais a fim de buscar outras inserções no quadro vigente. Até recentemente, a formação profissional caracterizou-se como instrumentalizadora de conhecimentos técnicos voltados para um posto de trabalho e desenvolvida com a perspectiva de adaptar o aluno àquela vida profissional. Porém a alteração das condições de produção e emprego tem deslocado o foco do processo de profissionalização do fazer para o saber fazer; de um trabalho individual em um posto específico para um trabalho em equipe; do simples cumprimento de ordens para o saber agir diante das situações e fornecer as respostas adequadas ao andamento do processo de produção.
A Educação a Distância (EaD), que já passou por várias experiências e reflexões ao longo de sua trajetória, desponta, e passando por releituras, é valorizada como uma estratégia que possibilita respostas ágeis e viáveis à diferentes necessidades educacionais, principalmente no que se refere à implantação de propostas de formação e atualização profissional. A flexibilidade da EaD permite o desenvolvimento de inúmeros modelos e diferentes sistemas educacionais, tornando-a bastante atrativa num período de acumulação flexível do capital. Por outro lado, estratégias de educação a distância podem se constituir como elemento que possa contribuir para a democratização da educação, na medida em que configure uma alternativa de acesso, também fora do espaço escolar, a processos educacionais e aos conhecimentos socialmente construídos e sistematizados para pessoas que, de outra forma, não teriam como fazê-lo.
Os debates na área de EaD têm sido ampliados e atualizados, principalmente em função do advento de novas tecnologias. A cada novo recurso que se torna acessível, a viabilidade da aplicação no setor educacional é explorada. Investigam-se as possibilidades cognitivas e metodológicas que permitam a sua inclusão nos processos de aprendizagem e interação com os alunos. Esta constante renovação tem-se dado pela rapidez com que ocorre o desenvolvimento tecnológico, pela curiosidade e pelo fascínio que exerce junto às pessoas, mas também não se pode perder de vista que a educação, hoje, é considerada efetivamente como um grande e potencial mercado. Produtos, sistemas, métodos e cursos são apresentados como possibilitadores da melhor forma de garantir sucesso tanto na tarefa educacional, como no futuro desempenho profissional do aluno.
Os processos educacionais, independentemente da modalidade e estratégia, necessitam de reflexão permanente sobre seu sentido social e político e suas relações com a cultura, pois, uma vez que são suscetíveis à realidade do mercado, há o risco de subordinar-se ou de ficar à margem dele, caso venha basear-se unicamente em vínculos econômicos. Evidentemente, cursos por si só não garantem colocação no mercado de trabalho. Porém à medida que possibilitam uma formação ampla de caráter educativo e crítico, não somente de conteúdo técnico específico, estarão conferindo ao aluno chances de inserção no mercado, bem como formas de confrontá-lo com a sua realidade, estabelecendo outras maneiras de se relacionar no contexto vivido.
Na trajetória da EaD, os autores que se dedicaram a estudá-la manifestaram preocupação em discutir conceitos, características e organização de sistemas EaD, a fim de compreender seus limites e possibilidades, destacando uma relação de oposição aos sistemas presenciais de educação. Hoje o debate tem apresentado outra dimensão, e vários autores apontam que a questão fundamental consiste em modificar o processo educacional convencional tanto os presenciais como não-presenciais na busca de caminhos inovadores e que estejam em sintonia com a realidade.
II - Referencial teórico da pesquisa realizada
O tema da educação a distância tem despertado interesse no espaço acadêmico. Trabalhos recentes têm discutido propostas pedagógicas com referencial construtivista, que levam em consideração o contexto histórico, social e cultural do aluno a fim de estabelecer novos paradigmas educacionais. No entanto, as discussões sobre a relação comunicação e educação pouco tem-se renovado nesta área. Observa-se que a inserção da comunicação tem ocorrido como aparato tecnológico, ou como midiatização, discutindo-se apenas quais os meios e linguagens mais adequados ao tratamento do conteúdo proposto. Portanto a comunicação é vista a partir do modelo informacional, compreendida meramente como transmissão de informação. Desta forma, o foco é centrado no processo da educação, observando-se uma visão instrumental da comunicação, que fica reduzida à idéia de meio. Sousa (1999: 10) destaca que esta forma de compreender a relação entre educação e comunicação explicita uma dicotomia entre fins e meios e estabelece uma hegemonia de um processo sobre outro quando deveriam ser compreendidos como processos que "embora distintos, se pressupõem e se aproximam" .
A EaD, por sua característica midiática, evidencia o problema e não encarar o desafio desta discussão pode significar a continuidade da reprodução dos modelos existentes, estreitando e empobrecendo as possibilidades educacionais e comunicativas oferecidas por esta estratégia. Tendo em vista a importância de superar esta dicotomia e considerando, como discute Martin Barbero (in: Sousa, 1995:36), que emissor e receptor não se colocam em relação a um meio ou a um canal, mas em relação a necessidades e problemas, esta pesquisa se propôs a investigar as práticas de recepção de um curso a distância, apresentado através de textos e programas de TV e destinado à formação profissional. é desenvolvida, portanto, na confluência dos campos apresentados: educação a distância, o mundo do trabalho e comunicação, para o qual se propõe um novo olhar a partir dos estudos culturais que deslocam o foco de estudo dos meios para as mediações e compreende todos estes campos como práticas culturais.
A proposta desta pesquisa consistiu em detectar e analisar as mediações e os processos de negociação de sentido que ocorrem na prática de recepção buscando apontar as diferentes apropriações, significações e ressignificações estabelecidas com as demais práticas cotidianas e como estes aspectos participam da constituição da subjetividade do aluno. Esta pesquisa compreende que a EaD traz novas práticas, novas vivências de relações entre sujeitos em um processo de comunicação e educação, inseridas em uma nova configuração de tempo e espaço constituindo, portanto, novas formas de se relacionar a partir das práticas educacionais.
Os estudos culturais em comunicação expressam um rompimento com as visões deterministas que sustentam o olhar centrado nos efeitos e no olhar ideológico a medida que entende a pluralidade de processos. Segundo Martin-Barbero (Pre- textos,1995: 150)a comunicação é questão de cultura, culturas, não só de ideologias; a comunicação é questão de sujeitos, atores e não só de aparatos e estruturas e que a comunicação é questão de produção e não só de reprodução.
Esta visão não significa uma recusa em compreender o lugar estruturante do sistema social e das ideologias que lhe dão sustentação, porém "resgata-se a autonomia da cultura, vista não mais como serva da ideologia, mas como campo na qual sua autonomia pode se revelar na sua capacidade criativa, ressignificadora e determinante da vida cotidiana" (Sousa, 1999: 20). O olhar a partir do enfoque dos estudos culturais recusa a visão de etapas da comunicação, assim compreendida tanto nos estudos funcionalistas quanto nos estudos ideológicos, para os quais comunicar é fazer chegar a mensagem com seu significado. Em sua crítica, Martin-Barbero(1995: 42) destaca que esta visão privilegia a lógica do emissor, politiza a mensagem e despolitiza o receptor, compreendendo-o ou como aquele que sofre o efeito da persuasão da comunicação ou como aquele que representa a figura do dominado e alienado. Para o autor (1995: 40-1), essa visão redutora leva a confundir "o significado da mensagem com o sentido do processo e das práticas de comunicação reduzindo o sentido destas práticas na vida das pessoas ao significado que veicula a mensagem".
Os estudos culturais buscam um olhar mais amplo, um olhar que não ignore o emissor e os meios, mas também não os privilegie. Com a preocupação de uma abordagem mais complexa, Martin-Barbero (1997) propõe o deslocamento do estudo dos meios para o estudo das mediações envolvidas no processo de recepção.
A recepção, nos estudos culturais, não é espaço da passividade, é o espaço das práticas culturais, vivências e experiências. é o "espaço de negociação de sentidos" em que ocorre o jogo de significações e ressignificações da vida cotidiana. Para o autor, a comunicação é uma questão de mediação, de cultura, e portanto mais do que de conhecimento, é de re-conhecimento.
III - Hipótese de trabalho
Esta pesquisa teve como hipótese que as práticas de educação a distância podem se constituir como práticas educacionais que superem o caráter informacional e a visão de isolamento em relação ao universo do aluno, que tem marcado esta modalidade, caso a proposta esteja centrada no sujeito e caso busque, através do conteúdo e das práticas adotadas, interagir com o contexto no qual os participantes do processo estejam envolvidos, estabelecendo um efetivo diálogo. Não se limitando somente aos aspectos de conteúdo. Entende-se que o contexto social e cultural envolve os aspectos objetivos da racionalidade, mas também contemplam o campo da subjetividade, pois o mundo do trabalho não é composto somente da racionalidade, embora a visão dominante aponte somente para esta perspectiva. Os sujeitos no mundo do trabalho e, portanto na formação profissional, se vêem nesse contexto conflitivo, e querem ser reconhecidos como sujeitos, com liberdade e criação, pois no cotidiano mesmo no campo profissional buscam-se "mil maneiras de inventar".
Entendendo, portanto, educação e comunicação como integrantes do campo da cultura, pode-se afirmar que as práticas de educação e de comunicação, mais do que conhecimento, remetem à re-conhecimento e identidade. (Martin-Barbero: 1995 e Silva: 1995)
O foco deste trabalho está, portanto, na prática de recepção de projetos educacionais, considerada como processo cultural e constituinte da formação dos sujeitos. Esta pesquisa busca no olhar dos alunos a percepção das mediações e negociações de sentido que se desenvolvem a partir das práticas de recepção e a vida cotidiana, buscando perceber o que eles consideram significativo. A análise teve como base o Telecurso 2000 Profissionalizante dedicado à formação profissional na área da Mecânica.
IV - Um retrato dos alunos entrevistados
A escolha dos alunos para compor a pesquisa teve como referência a relação dos que haviam prestado pelo menos um dos dois exames de conclusão de módulos realizado pelo SENAI e buscou contemplar a diversidade de situações de acompanhamento do curso. Foi desenvolvida junto a 23 alunos dentre os quais encontram-se alunos que estudavam individualmente utilizando-se do sistema de recepção aberta com diferentes níveis de escolaridade e experiência profissional na área. Foram também pesquisados alunos que estudavam através da recepção em 04 telepostos tendo sido primeiramente escolhidas as empresas que adotaram este sistema observando-se sua localização (Grande São Paulo e interior) a característica de ser ou não integrante do setor metal mecânico. Buscou-se também selecionar um teleposto implantado por uma instituição, neste caso um órgão de prefeitura municipal. Após a escolha dos telepostos, estabeleceu-se um contato com a empresa ou órgão a fim de buscar levantar as características daquele teleposto específico para, a partir, daí escolher os alunos que integrariam a pesquisa.
Faixa Etária
Os alunos entrevistados possuíam entre 17 e 45 anos, distribuídos em várias faixas etárias, o que permitiu verificar grande diversidade de momentos de vida, e expectativas em relação ao curso estudado. Nesse grupo de alunos encontram-se jovens que estão buscando caminhos profissionais; pessoas com mais de 40 anos que estão à procura de formas de continuar trabalhando depois da aposentadoria; e trabalhadores preocupados em manter-se no mercado: a maior concentração, com 11 alunos (47,81%), está na faixa entre 31 e 40 anos, portanto pessoas que já possuem uma trajetória profissional significativa.
Escolaridade
No caso dos alunos entrevistados, a maioria 18 alunos tem nível de Ensino Médio (antigo 2º Grau), sendo que sete não o concluíram e 11 o concluíram. Dentre estes 18 alunos, oito estabeleceram vínculo direto em áreas técnicas (mecânica e eletroeletrônica), com a perspectiva de profissionalização.
Situação civil e familiar
A maioria dos entrevistados, composta por 17 alunos (73,91%) é casada. Dos casados, 16 têm filhos. O número de filhos varia entre um e dois somente um dos alunos tem três filhos.
Situação de trabalho
Dos 23 alunos entrevistados, 19 (82, 60%) estão empregados; três (13,04%) estão desempregados e um (4,34%) trabalha como comerciante autônomo. Dentre os 19 alunos que trabalham em empresas, somente um não é registrado, os demais são regularmente contratados, possuem registro em carteira de trabalho e gozam dos direitos trabalhistas vigentes. Dentre os 19 que estão empregados, 16 (84,21%) trabalham diretamente na área de Mecânica. Convém acrescentar que nenhum desses 16 trabalhadores do setor são empregados de pequena empresa. Todos trabalham em empresas de grande porte. Dois desses trabalhadores já estão com processos de aposentadoria encaminhados, pois embora tenham pouco mais de 40 anos, já possuem esse direito adquirido pois começaram a trabalhar ainda adolescentes, e estão com todo o processo documentado.
Faixa Salarial
Para muitos, essa é uma questão delicada, nem sempre tratada com naturalidade. Vários alunos, quando perguntados sobre esta questão, tergiversavam apresentando dados de referência ou fornecendo aproximações de outros elementos, tais como valor por hora na empresa. Pôde-se constatar que a faixa salarial dos alunos é diversificada em função das diferentes situações de trabalho observadas e que a maioria dos alunos (15) recebiam entre 4,2 a 7,5 salários mínimos, o que significava um valor bruto máximo de cerca de R$900,00.
Moradia
Dos alunos entrevistados, 18 (78,26%) moram em casa própria, embora nem todas tenham sido quitadas, estando a propriedade em nome de agente financeiro. Dentre estes, quatro construíram eles mesmos ou com apoio de familiares e amigos a casa em que moram; três ( 13,04%) moram em casa da empresa; dois (8,69%)moram em casa alugada. A maioria (60,86%), que corresponde a 14 alunos, mora em região periférica da cidade; cinco alunos (21,73%) moram em bairros não-centrais porém não periféricos. Somente quatro alunos (17,39%) moram em bairros centrais, de municípios do interior distante mais de 220 Km da cidade de São Paulo.
V- Alguns pontos de conclusão da pesquisa
Os relato dos alunos foram organizados em campos inter-relacionados da vida cotidiana desses sujeitos, sistematizando-se, na análise, as diferentes expressões e experiências no campo da vida pessoal e familiar, as relações no mundo trabalho e a proposta de educação à distância que desenvolviam.
O primeiro ponto diz respeito à exclusão e como é percebida e vivenciada pelos sujeitos entendendo-se exclusão de uma forma ampla que inclui os aspectos sociais, econômicos, educacionais, e todo o significado cultural que traz. Explicitaram-se medos e inseguranças relacionadas ao mundo do trabalho e à luta pela sobrevivência na sociedade atual, gerados pelos diferentes processos de exclusão. Foi possível observar como os alunos incorporam uma responsabilidade, como se tivessem culpa pela situação enfrentada. Nos relatos dos alunos constaram expressões como "constrangido" e "envergonhado" diante dos amigos, de familiares e de si próprios, em razão de reprovação em exame, ou de não ter nível de escolaridade, não tendo sequer a possibilidade de concorrer a uma vaga para mostrar o que sabe fazer e como faz determinada atividade que ele, inclusive, gosta de fazer.
O medo da exclusão social e a luta para não estar entre os excluídos mobilizam os sujeitos a dedicar um tempo longo e importante de suas vidas ao estudo, na busca de um aprimoramento profissional, enfrentando dificuldades para acomodar esta atividade de estudo na vida cotidiana. Dentre as adversidades enfrentadas apresentam-se também aquelas geradas pela própria estratégia educacional adotada que, não sendo focada no aluno como centro e sentido final da proposta, não desenvolve um sistema que atenda as necessidades que surgem durante o processo educacional.
Nesse sentido, é importante que a flexibilidade, possível na estratégia de EaD, garanta a pluralidade de meios e materiais, atendimento e interação que permitam ao aluno escolher o que melhor se adapte à sua realidade. Tempo e dinheiro normalmente são os pontos restritivos citados no desenvolvimento de projetos, sem a análise dos benefícios efetivos de aprendizagem. Decidir primeiro a tecnologia com a qual será desenvolvido o sistema, antes que se tenha clareza da totalidade da proposta educacional; ou a visão de que a EaD tem investimento alto mas barateado com o grande número de usuários, são aspectos presentes em decisões sobre o desenvolvimento de projetos.
Muitas das decisões, tomadas na fase de definição do projeto, são sustentadas justamente pela visão informacional e de atendimento massificado predominante. Nesse sentido, vivem-se situações conflitivas em que a força da visão informacional e massificada dificulta, e até cerceia em alguns casos, a experimentação e o desenvolvimento de novas estratégias e metodologias que possam constituir o desenvolvimento de práticas educacionais que contemplem uma perspectiva centrada no aluno.
Esse aspecto é fundamental, pois se o curso configura-se como um espaço em que os alunos não encontram caminhos para discutir as questões que os preocupam, sejam de ordem prática, sejam de ordem teórica, ou mesmo da dinâmica de trabalho, eles começam a perceber que o curso não supre as necessidades e passam a se desinteressar levando-os a buscar outras alternativas que atendam melhor as suas expectativas. Por outro lado, mesmo que o aluno esteja interessado, mas com dificuldades, e o desenvolvimento do curso não ofereça condições para que as dificuldades sejam superadas, o aluno também virá a pensar que o problema é dele e desistir, não só daquele curso específico, mas desistir de estudar e assumir para si uma incapacidade de aprender, resgatando ou reforçando uma idéia de fracasso escolar já vivida, aumentando o sentimento de impotência.Este sentimento de impotência é elemento que interfere no processo de apropriação do sujeito.
Considerando essas situações, uma desistência pode gerar o afastamento do aluno da educação. A EaD tem na sua origem a proposta de organizar e oferecer um sistema que atenda aqueles que, por qualquer motivo, não tenham possibilidade de freqüentar a escola e, se a estratégia não consegue atender, mesmo podendo lançar mão de múltiplas alternativas, em vez de se constituir como uma estratégia democrática, pode acabar se constituindo como outra expressão de exclusão.
Os mecanismos de exclusão social também representam estratégias de subordinação do capital sobre os trabalhadores, e as relações de poder e exploração tornam-se mais intensas em situações e períodos como estes, de insegurança relacionada à grande competitividade do mercado de trabalho. Na pesquisa, as relações de poder e a forma com que se expressam no mundo do trabalho também foram bastante destacadas.
Trabalhadores, chefes, supervisores fazem parte de um jogo de poder estabelecido no contexto da hierarquia. A divisão de trabalho é vista como controle e autoridade, mas também como oportunidade de ascensão profissional, de manifestação ou de valorização de um conhecimento. No espaço de trabalho, configuram-se os limites e as possibilidades de expressão do saber e uma convivência com as contradições entre a cobrança de conhecimentos e a possibilidade concreta de poder vivenciá-lo.
Por outro lado, não significa que o único norte que orienta a perspectiva dos alunos seja esta questão da exclusão e que a sobrevivência seja o único aspecto importante na mobilização de interesse do aluno em realizar uma atividade de formação profissional a distância. Ao contrário, o sonho e a busca do sentido, do prazer e da identificação no trabalho estão presentes o tempo todo. O gostar da área ou do trabalho que realiza gera diferentes formas de envolver-se com os desafios e com os problemas que ocorrem. Outros sentidos são atribuídos não só ao processo de aprendizagem, mas a todas as práticas que se desenvolvem no espaço do trabalho, cuja dinâmica estabelece, ou não, uma relação de rotina. O gostar, portanto, está relacionado à possibilidade de expressão criadora que a realização de um trabalho pode proporcionar. No caso pesquisado, os alunos consideravam a inexistência de rotina, e destacaram detalhes de diferenciação que ocorrem no cotidiano, e mesmo aqueles cujo posto de trabalho era na produção e, portanto, intenso, percebiam constantes desafios.
Entretanto, a questão central se dá nas relações que se constituem no cotidiano. O espaço do trabalho não se limita à geração de mais-valia. O trabalho é espaço de conflitos de relações sociais e culturais, é também local onde se afirmam as relações de solidariedade ou de competitividade, de afinação ou de confrontos, de aceitação e valorização da pluralidade ou de intolerância com a diferença existente entre os trabalhadores.
Por outro lado, na vida cotidiana ocorre a apropriação das mais diferentes formas, e o conhecimento "transita" em diferentes usos, aplicações e sentidos de trabalhos que vão estabelecendo redes e inventando maneiras criativas de realizar os sonhos e colocar projetos em prática. As ações de formação profissional costumam considerar somente os aspectos objetivos e racionais do conteúdo, porém é preciso levar em conta o desejo, este anseio humano, capacidade de relacionar e de criar e vivenciar, de sonhar.
Considera-se que uma das questões mais significativas da pesquisa foi observar e discutir aspectos de vivência, de práticas cotidianas que explicitam a conformação da relação de racionalidade e da subjetividade. O modelo de cursos fundamentados em visão informacional , condutista, priorizam só um lado, o da objetividade, da racionalidade, não contemplam espaços para expressões subjetivas. Por outro lado o sujeito traz e vivencia, a partir das práticas cotidianas, uma percepção da relação destes dois elementos, uma vez que eles estão presentes no contexto social e cultural.
E, considerando a elaboração de um curso a distância, o primeiro movimento seria o de ouvir o que os alunos tem para dizer. Como a pesquisa apresentou, os alunos têm uma visão formada e manifestam o desejo de falar sobre si, sobre o trabalho que realizam, sobre a formação que possuem, de que necessitam, o que pensam. O aluno tem muito a contribuir, porque afinal a aprendizagem é dele. é, portanto, fundamental ouvir o que ele tem a dizer, aceitando olhar que ele traz, ouvindo-o e possibilitando a ele participar dos rumos da sua própria formação. Porém não adianta só fazer pesquisas e levantamentos, perguntar, mas não levar em consideração. é necessário reconhecer e dar legitimidade à fala do outro. Adotar uma dinâmica que incorpore a voz do outro requer pensar e desenvolver estratégias, metodologias. Não ouvir, ou não considerar a fala do outro, é também uma forma de exclusão.
Ouvir o aluno, reconhecer o seu olhar, é conhecer o contexto, suas práticas, seu cotidiano, é estabelecer as bases para um diálogo que tem início com a busca de metodologias, sistemas, materiais e interação e que se estenderá ao longo do processo educacional desenvolvido com a perspectiva de superar de um lado a visão informacional e de outro a visão de isolamento em relação aluno.
Referência Bibliográfica
* Dissertação de mestrado apresentado à ECA/USP em janeiro de 2000, possuindo vasta bibliografia no campo da EaD, da comunicação, da educação e do mundo do trabalho. Em função de limitação de espaço, aponto aqui os autores e obras citados nesta síntese.
MARTIN-BARBERO, Jesús.América latina e os anos recentes : o estudo da recepção em comunicação social. In: SOUZA, Mauro Wilton (org.), Sujeito, o lado oculto do receptor. São Paulo, Brasiliense/ECA, 1995. pp.39-68
______De los medios a las practicas. In: Cuadernos de Comunicación y Practicas Sociales, n.1. Mexico, Universidad Iberoamericana, 1990, pp.09-18.
______Dos meios às mediações comunicação cultura e hegemonia. Rio de Janeiro, UFRJ, 1997.
________ Pre-textos conversaciones sobre la comunicacion y sus contextos. Cali, Centro Universidade del Valle. Coleccion Ensayo Iberoamericana, 1995.
SOUZA, Mauro Wilton. Comunicação e educação entre meios e mediações. In: Revista Cadernos de Pesquisa. São Paulo, Fundação Carlos Chagas/ Autores Associados, n. 106, Mar- 1999, pp. 09-25

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