Textos
Aldemir Cacique
O Ensino Presencial e Via Internet: Uma Experiência Comparativa em Educação a Distância
Aldemir Cacique
Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais - CEFET-MG
Email: cacique@unibh.br
(Texto para download: Formato Word (.DOC))
RESUMO
Comparou-se mini-curso presencial sobre Métodos para Produção e Controle da Aguardente Artesanal com um equivalente não presencial via internet. A média da prova final foi semelhante mas as trajetórias individuais de aprendizagem diferiram. Derivam-se desta experiência sugestões para melhoria em ambas metodologias de instrução e para planejar EAD de modo a se adaptar às características e potencialidades de cada aprendiz segundo seus perfis peculiares.
Palavras-chave: Aprendizagem, Ensino Presencial, Educação à Distância, Internet
1. Introdução
Relata-se que a média da avaliação quantitativa dos alunos do mini-curso à distância pela internet foi equivalente à da presencial mas houve interessantes diferenças de performance entre os estudantes. Sugerem-se hipóteses explicativas relacionando os resultados finais com as diferentes trajetórias de estudo registradas pelo software de controle
Compararam-se resultados finais de avaliação presencial única aplicada aos dois grupos de alunos de Engenharia de Alimentos que estudaram o métodos para produção e controle da aguardente artesanal, sendo que 25 freqüentaram classe presencial e 10 estudaram exclusivamente através da internet.
O propósito da investigação foi fundamentar recomendações de melhorias para serem introduzidas na metodologia didática sobretudo para cursos à distância via internet e especificar algumas condições para o bom êxito da instrução em ambas situações. Relata-se um projeto piloto de pesquisa para dissertação no curso do Mestrado em Tecnologia no CEFET-MG que tentará responder a questões como: Em que diferem quantitativa e qualitativamente estes dois formatos? Os resultados obtidos são muito diferentes? Quais as dificuldades apontadas no formato não-presencial? Tecnologia é fator motivador ou inibidor no processo de aprendizagem?
2. Teorias, Estudos e Tendências
Surge um novo modelo educacional, onde os personagens que o integram assumem novos papéis e leva-nos a considerar a educação sob perspectivas que atendam às necessidades atuais de inclusão do indivíduo dentro de uma sociedade da informação. Nele o professor deixa de ser simplesmente transmissor do conhecimento passando a atuar como elemento incentivador de descobertas e auxiliar no processo de aprendizagem do aluno. Esta mudança de paradigma e o impacto da internet nas salas de aula são contextualizadas no quadro seguinte de Marilene Santos Garcia e Iolanda Cortelazzo, então pesquisadoras da Escola do Futuro da Universidade de São Paulo (NOVA ESCOLA, 1998).
Tabela 1
A sala de aula antes e depois da Internet

Fonte: Revista Nova Escola, Ano XIII, N† 110, Março de 1998.
O aluno, por sua vez, deve ser compreendido como o indivíduo dotado de mais habilidades do que simplesmente o raciocínio lógico-matemático e lingüístico. Como GARDNER (1995) argumenta, é preciso reconhecer e trabalhar outras habilidades, como a espacial, a corporal, a musical, a interpessoal e a intrapessoal.
O tradicional modelo de educação à distância que utiliza material impresso, áudio e vídeo, com a implementação de recursos de multimídia e internet contempla assim funções que valorizam a interatividade e à aprendizagem não-linear caracterizado pela leitura hipertextual.
As escolas que têm suas relações baseadas historicamente na oralidade, na leitura e na escrita (LEVY, 1993) procuram novos caminhos que contemplem as múltiplas oportunidades e recursos que a sociedade moderna dispõe. Mas o processo de desenvolvimento e inclusão neste novo modelo está embasado também na valorização do indivíduo, procurando não deixar que a tecnologia seja o aspecto de maior relevância. "Acreditamos que a tecnologia sozinha não é solução nem única condutora desse processo" (PALDêS, 1999: 17).
Os avanços tecnológicos obtidos nas últimas décadas nos permitem vislumbrar um futuro onde a informação, bem como as diversas formas que ela será trabalhada e distribuída, estabelecerão novas relações entre povos e nações.
"A internet está criando algumas expectativas aparentemente democráticas em todas as áreas do conhecimento que fizeram deste instrumento uma das ferramentas sobre as quais gira grande parte das inovações educativas que utilizam tecnologias". FRUTOS(1998)
A Internet abre um vasto campo para que se trabalhe educação à distância. Mas os aspectos tecnológicos em que o "ensino aberto à distância explora certas técnicas de ensino a distância, incluindo as hipermídias, as redes de comunicação interativas e todas as tecnologias intelectuais da cibercultura" apontados por LÉVY (1999), também são pontos que restringem a ampla difusão desta mesma tecnologia.
Aspectos relativos à velocidade de acesso e transmissão de dados, compatibilidade tecnológica, tratamento de dados em diversos formatos como áudio e vídeo, ainda são dificultadores e pontos vulneráveis sob os quais são tecidos fortes questionamentos.
Muito ainda está por vir com o avanço das tecnologias de comunicação voltadas para a Internet, principalmente wireless (sem fio) e modem cable, e também o lançamento da Internet 2, rede de alta velocidade, que está em fase de testes nas ReMAV (Redes Metropolitanas de Alta Velocidade).
3. A investigação
A partir da aprovação da proposta pela coordenação do curso Engenharia de Alimentos e do Departamento de Ciências Biológicas e da Saúde (DCBS) do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH), ofereceu-se o mini-curso aos alunos como atividade curricular complementar com carga horária de 36 h/a.
O UNI-BH cedeu o espaço físico necessário para a realização do curso presencial e recursos de informática. Também disponibilizou o domínio para que o site fosse publicado e um diretório reservado no servidor web da instituição para receber os arquivos que compõem o ambiente. O administrador da rede viabilizou o acesso ao banco de dados com o cadastro básico dos alunos e o controle do ambiente para internet (acessos, participações e atividades) através de aplicativos em ASP (Application Server Program), bem como a criação de uma conta de e-mail para a comunicação entre os participantes e o orientador do curso.
O grupo de pesquisa foi composto por 68 participantes (tabela 2) do curso de Engenharia de Alimentos do UNI-BH de todos os períodos do curso. O grupo da Internet foi composto inicialmente de 31 alunos, sendo que houve desistência de 44% (quarenta e quatro por cento) dos participantes. Os elevados índices de abandono e desistência foram em decorrência da oferta de outras atividades complementares pelas quais os alunos poderiam optar. Como as inscrições eram abertas, estes não prosseguiram com o curso em detrimento de outra atividade.
Tabela 2
População - Composição dos Grupos

Fonte: Banco de Dados da Pesquisa
Como o pré-requisito para participar da pesquisa era o domínio de técnicas básicas de navegação pela web, a escolha dos integrantes do grupo da Internet não mensurou o grau de familiaridade com o ambiente computacional. Este grupo foi formado considerando-se basicamente o quesito acessibilidade à Internet; que contemplava o acesso em casa, na escola, no trabalho ou de outra maneira mencionada no preenchimento do formulário de inscrição, mesclando alunos que já tinha uma experiência mais apurada no ambiente, sem contudo terem participado de cursos pela Internet, com alunos que não tinham o hábito de acesso freqüente à rede, restringindo seus conhecimentos à navegação básica pela web.
3.1. Elementos Comuns
O mini-curso foi formatado em 5 módulos: Introdução(Definições e conceitos básicos), Matéria-prima, Fermentação, Destilação e Envelhecimento / engarrafamento.
As discussões foram conduzidas a partir de textos básicos e leituras complementares ao tema principal. O material que foi trabalhado com os alunos na sala de aula também estava disponibilizado para o ambiente na Internet.
A avaliação quantitativa da aprendizagem foi medida através de um instrumento que contemplava questões relativas ao conteúdo ministrado nos três meses de aulas do mini-curso aplicada presencialmente a ambos os grupos no final do curso.
3.2. Elementos Diferentes
Para o Grupo Presencial foram proferidas palestras com especialistas em determinados temas específicos. O Grupo Internet participou de chat com estes especialistas sobre os mesmos temas.
O Grupo Presencial teve sua participação medida através de listas tradicionais de freqüência. Como requisito para receber o certificado de participação, os alunos não poderiam faltar, sem justificativa, às aulas durante a pesquisa.
O grupo da Internet trabalhou apenas com as ferramentas disponíveis no ambiente web criado especialmente para essa investigação. O controle de participação do grupo da Internet foi feito através do aplicativo desenvolvido para o ambiente que registrava no banco de dados a data e hora em que o usuário acessava ao ambiente e mapeava a navegação do aluno no site, registrando cada ação.
3.3. Estrutura do site
A estrutura do site foi composta por um texto básico e tarefas auxiliares. O modelo estrutural (fig. 01) adotado na concepção do ambiente possibilita que se trabalhe o conteúdo de forma espiral através de links para outras seções.
Fig. 01 ‚ Modelo Estrutural do Ambiente na Internet
O fluxo de desenvolvimento das aulas sugerido seguiria a composição e disposição das páginas no site. Ao longo do texto básico, foram inseridas atividades e links para outras fontes de informação. Em várias expressões ou terminologias foram colocados atalhos para janelas que apresentavam conteúdos complementares ou explicativos. A partir das citações de autores nos textos, pode-se acessar a bibliografia básica do curso, disponível na seção "Midiateca" composta ainda por textos e bookmarks.
Exercícios de fixação compostos de 5 questões de múltipla escolha foram distribuídos pelas aulas. Isto possibilitou um processo síncrono de avaliação da assimilação do conteúdo exposto.
No ambiente foram inseridas algumas ferramentas que contribuem no processo de aprendizagem como relatório de atividades, perguntas e respostas mais freqüentes (FAQ), ferramenta de pesquisa no site, fórum e. A comunicação assíncrona era feita através do quadro de mensagens e de e-mails entre o instrutor e os alunos, entre os próprios alunos e entre os alunos e a coordenação da pesquisa.
3.4. Levantamento de Dados
A identificação de características dos participantes feita no ato da inscrição através de um instrumento de auto-avaliação considerou quatro questões básicas: Aguardente, Produção de bebidas destiladas, Educação à distância e Educação na internet.
Ao longo do curso, o Grupo Internet respondeu a outros questionários que procuravam identificar os recursos disponíveis e utilizados pelos participantes, como configuração do computador, forma de acesso, ergonomia (móveis e postura) e interferências ambientais ( nível de ruído e luminosidade ) no local de estudo.
O instrumento final de avaliação do conteúdo do curso, composto por um questionário de 10 (dez) questões relativas ao conteúdo básico do curso, testou se, independente do ambiente, os alunos tiveram uma visão global do material trabalhado e das metodologias empregadas no mini-curso. Através de questões objetivas visava-se capturar o grau de retenção das informações discutidas, evidenciado nos resultados mostrados na tabela 3 que apresenta a pontuação média em cada atividade, considerando como média para aprovação 70% (setenta por cento) dos pontos destinados para exercícios (3) e prova final (7) num total de 10 (dez) pontos. O instrumento foi aplicado a todos os participantes da pesquisa reunidos em sala de aula.
Podemos observar uma equivalência dos resultados obtidos pelos dois grupos no instrumento de avaliação final, onde o grupo da Presencial obteve um índice ligeiramente superior (77%) em relação ao Grupo Internet (76%).
Tabela 3
Avaliação de Aprendizagem - Pontuação

Fonte: Banco de Dados da Pesquisa
Numa análise focada no Grupo Internet identificamos alguns aspectos relevantes para compreendermos os resultados obtidos pelos alunos deste grupo.
Podemos perceber pela Tabela 4 que o Grupo Internet teve um comportamento peculiar em função de características do próprio ambiente. Como o ritmo de trabalho bem como os horários para navegação e acesso à Internet são individuais, cada participante acessava, dentro do período que foi realizado o mini-curso, como lhe era conveniente.
Numa análise do desenvolvimento dos alunos no decorrer dos meses, podemos observar que a questão da prática distribuída é fundamental para uma análise de desempenho e efetividade da aprendizagem.
Tabela 4
Distribuição de Acessos ao Curso - Grupo Internet

Fonte: Banco de Dados da Pesquisa
4. Discussão
A partir da tabela 4 podemos desenhar um quadro em que a regularidade de acesso ao conteúdo do curso propicia um melhor aproveitamento, sugerindo que na Internet o estudo distribuído de forma equilibrada e com uma certa constância pode levar a um melhor rendimento nas avaliações.
Outro aspecto relevante a ser considerado é o tempo médio dedicado aos estudos. Há certamente um tempo ideal para cada pessoa mas há outros fatores a considerar pois, conforme a tabela 4, não há uma relação linear entre resultado da aprendizagem e a quantidade de horas on-line e nem com o número de acessos. Os dados sugerem que o padrão de regularidade e a distribuição temporal dos acessos podem ser um fator relevante.
Os aspectos de motivação e interatividade observados durante o curso apontam para algumas discussões peculiares à proposta e ao formato do mini-curso. Em função do nível de desistência e do número de integrantes do grupo Internet, procurou-se estimular a participação deles através de ações que visavam motivar a integração ao curso e interação entre os participantes.
5. Conclusões
Esta experiência possibilitou-nos identificar alguns indícios que nos levariam a responder os questionamentos apontados na introdução deste trabalho, sem contudo, apresentar uma posição definitiva e comprobatória das afirmações e expectativas.
A equivalência dos resultados permite-nos compreender a eficiência de metodologias de ensino à distância mediadas pelo computador a partir do desenvolvimento de atividades em ambientes virtuais de aprendizagem.
A partir dos depoimentos dos participantes da pesquisa, percebemos que a questão tecnológica ainda é um fator de inibição, quando da opção pela grupo presencial ou Internet Os alunos que participaram do Grupo Internet relataram que a composição visual do ambiente influiu bastante para que esta questão fosse minimizada e possibilitasse um aspecto de motivação para a conclusão do curso.
A tecnologia implementada no desenvolvimento do ambiente na web permitiu que se fizesse um controle mais eficaz do processo de aprendizagem desenvolvido pelo Grupo Internet. Os resultados obtidos pelas ferramentas de controle implementadas nos dão indícios de que o modelo individual adotado pelos alunos que privilegiou a regularidade e consistência no processo de aprendizagem coincidiu em melhores desempenhos. Este é um aspecto que pode ser mais contemplado em pesquisas futuras.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
1. LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência: futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.
2. ___Cibercultura? Trad. de Carlos Irineu da Costa, Rio de Janeiro: Ed. 34, 1999.
3. SANCHO, Juana M. (Org) . Para uma Tecnologia Educacional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
4. PALDêS, Roberto ávila . O Uso da Internet na Educação Superior de Graduação : Estudo de caso de Uma Universidade Brasileira - (Dissertação) Universidade Católica de Brasília (1999)
5. NOVA ESCOLA, O Micro invade a sala: a didática nunca mais será a mesma, Fundação Victor Civita, São Paulo, p. 10 a 17, ano XIII, N. 110, mar./1998.
6. GARDNER, Howard . Inteligências Múltiplas . A teoria na prática . Trad. de Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artes Médicas , 1995.
7. FRUTOS, Mário Barajas . Texto "Comunicação Global e Aprendizagem: usos da Internet nos meios Educacionais" em SANCHO, Juana M. (Org) . Para uma Tecnologia Educacional. Porto Alegre: ArtMed, 1998 - p. 314.
Currículo
ALDEMIR CACIQUE
• Mestrando em Educação Tecnológica pela Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais - CEFET-MG (Stricto sensu)
• Especialista em Novas Tecnologias em Educação e Treinamento pelo Centro Universitário de Belo Horizonte - UNIBH (Lato sensu)
• Especialista em Gestão Estratégica em Marketing pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC-MG (Lato sensu)
• Bacharel em Administração de Empresa pelo Centro Universitário Faculdades Integradas Newton Paiva
• Membro da Associação Brasileira de Tecnologia - ABT e da Associação Brasileira de Educação a Distância - ABED
Atualmente atuo como assessor técnico da Pró-Reitoria Administrativo-Financeiro do Centro Universitário de Belo Horizonte - UNIBH, membro da Comissão de Educação à Distância e da Comissão de Informática do UNIBH.
Contato: (0 xx 31) 3378-2749 ou (31) 9979-9441 cacique@unibh.br

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